Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Estamos fartos de vocês, ignorantes!

Marega

Moussa Marega estava em campo cumprindo o seu dever: ser o melhor, fazer o melhor e dar uma conquista para a sua equipa, o Porto, frente ao seu antigo clube, o Vitória de Guimarães. Até que aos 71 minutos não aguentou mais e saiu de campo após ouvir insultos da claque adversária, oriunda do "berço da nação", entoando cânticos orgulhosamente racistas. Não é inédito. A novidade é um jogador ter a coragem de enfrentar a horda com dois dedos no ar e ainda os mandar "foder" nas redes sociais. Ele levou um amarelo, mas mostrou um cartão vermelho aos racistas. Eu acrescento com ele: estamos fartos de vocês, ignorantes!

O liberalismo, através das democracias liberais, tornou-se numa fábrica de ignorantes. Pois só assim é capaz de manter a desigualdade necessária para gerar desunião de classes e exploração trabalhista. Em grande parte, essa desinformação e exploração estão na base da maioria dos conflitos que servem de respaldo aos racistas, misóginos, xenófobos, homofóbicos e fascistas em geral. É dessa ignorância que surge a diferenciação e a oposição, entre uns e outros, entres o "nós" e "eles", entre os "homens brancos" (tão frágeis como qualquer um) e os outros. Estamos fartos de vocês!

Estamos fartos da relativização de argumentos, que invertem valores e tornam crimes em "polémicas"; estamos fartos que desvalorizem a dor dos outros é que incitem à impunidade de quem pisa os direitos fundamentais de cada ser humano; estamos fartos que atirem a culpa às pautas de luta contra o racismo, pelo feminismo (não liberal) ou pelos direitos LGBTQIAP+; estamos fartos que nos digam que a "luta de classes" não importa, quando é a deterioração das classes mais baixas e das classes médias que está a fazer apodrecer as sociedades, como uma árvore envenenada que só produz fruta podre.

Estamos fartos de vocês, ignorantes, incapazes de entender que não existe diferença de raças e que os primeiros escravos eram brancos, os "eslavos". Estamos fartos de vocês, ignorantes, incapazes de ouvir quando vos demonstram que não existe diferença nenhuma entre alguém que tenha uma determinada religião ou outra, ou até nenhuma, que somos todos biologicamente semelhantes, apesar das múltiplas variedades possíveis dentro do nosso genoma. Estamos fartos de vocês, ignorantes, incapazes de ver a extensão da vossa própria ignorância, cuja sombra deixa um lastro de destruição e obscurantismo por tudo quanto é lugar.

Da mesma forma que também estamos fartos daqueles que não se levantam da mesa, onde comem fascistas, racistas, nazis, homofóbicos, misóginos, reaccionários e todo o tipo de escória que não merece um lugar à mesa da sociedade ou da democracia. Estamos fartos desta vergonha e hipocrisia, onde só se arranjam desculpas para os abusos e nunca motivos para defender as vítimas e proteger a sociedade do ódio, da diferenciação e da própria ignorância!

Confundir críticas com racismo

Joacine Katar Moreira

Dizer que todos, os outros, são "todos iguais", que estão "todos errados", que são "todos racistas", que estão "todos contra mim", é bloqueador, além de exludente. É paralisante. Confundir crítica com preconceito é uma falácia, além de um erro. Confundir o racismo estrutural com a incapacidade própria de gerar consensos é uma fatalidade, além de ser injusto, quer com aqueles que realmente sofrem dessa condição, quer com aqueles que lutam contra ela de diferentes formas.

 

A luta pelos direitos civis, pelas liberdades e garantias e, neste caso em particular, pela igualdade, seja ela identitária ou social, deve ser feita através de organização, de diálogo, de debate e sobretudo de discussão. Uma discussão que vise a transmissão de informação e conhecimento, mais do que a afirmação de estigmas, o embate de visões estanques ou o afunilamento na personalização.

 

Qualquer líder de movimentos sociais deve começar por perceber e interiorizar que o mais importante é a afirmação do coletivo, o fortelacimento de laços e as conquistas coletivas que devem suplantar as individuais e não ao contrário, sob pena de liderar uma causa suicida. É preciso fazer barulho, é preciso agitar os grupos, é preciso conquistar espaço, mas esse espaço deve ser para todos e servir a todos e não para priveligiar a atuação de um indivíduo só, tornando inimputáveis quaisquer falhas. Essa é a estratégia do nosso adversário, aquele que acha que uns devem ter mais direitos por serem superiores, únicos e capazes.

 

Assim como numa batalha, um general competente deve entender que a sua missão não é ficar de pé no final, mas estar disposto a cair, desde que consiga poupar o máximo de vidas do seu exército, vencendo aquele embate através de uma estratégia capaz de suplantar a força bruta. A vitória coletiva é mais importante que a sobrevivência individual e a glória só se atinge pela abnegação.

 

Conduzir uma causa para um confronto às cegas, disparando para todos os lados, inclusive contra aliados que estão à retaguarda a tentar corrigir falhas, e dando o flanco ao inimigo para proteger uma trincheira, mais do que um suicídio, é uma burrice.