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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

A indiferença também mata

DR

Última Hora: “Cabo-verdianos agridem e deixam jovem à morte após noite de álcool”.

 

Este seria o título da notícia que ia fazer manchete em vários jornais e sites, regionais e nacionais, caso o Luís Giovani dos Santos Rodrigues e os amigos tivessem, por ventura, sido os autores das agressões que este sofreu. Já na eventualidade de alguém agredido pelo Luís Giovani ter falecido, o título seria que “jovem morre após agressões de cabo-verdiano na noite”. Seguir-se-iam os infindáveis debates sobre matérias cujo próprio fundamento é em si discriminatório. Mas não foi isso que aconteceu. Foi exatamente o oposto. 

 

A verdade é que morreu um jovem estudante e músico, de 21 anos, no Porto, nove dias após ter sido agredido em Bragança por um grupo de 15 rapazes, dois meses depois de chegar a Portugal, devido à gravidade dos ferimentos que sofreu. A verdade é que Luís Giovani foi encontrado caído na rua, dado como alcoolizado pelas autoridades e só após a chegada dos primeiros socorros é que a equipa de emergência descobriu um ferimento na cabeça e "verificou que se tratava de um possível traumatismo craniano". A verdade é que mais de 16 dias depois, já falecido, as autoridades policiais sustentaram a tese de “um motivo fútil” na origem do caso, embora agora afirmem que não descartam a possibilidade de crime de ódio racial. 

 

“Fútil” foi a forma como Luís Giovani foi tratado por todos, realmente. Agredido até à exaustão por 15 covardes, armados "com cintos, paus e ferros". Insignificante foi a forma como a imprensa o tratou, começando a noticiar a situação de forma tímida só após a sua morte e pressionada pelos comentários externos, vindos sobretudo da sociedade civil. Volúvel e inconstante foi a omissão que os media fizeram deste assassinato, executado num dos países mais seguros do mundo. Os mesmos media que não hesitariam em promover linchamentos, ataques de ódio, xenofobia e discriminação, caso algum estrangeiro e negro, em vez de ser a vítima, fosse o alegado autor que qualquer tipo de crime. Ninguém explicou ainda o que aconteceu entre o bar e o local onde Luís foi encontrado inanimado.

 

Inútil e hipócrita é tentar justificar o sucedido, desvinculando isso da forma como em Portugal são tratados e acolhidos os estrangeiros, sobretudo os negros – descendentes daqueles cujos nossos heróis e antepassados dos "descobrimentos" escravizaram, exploraram e mataram – assim como os árabes, os muçulmanos e os brasileiros ou qualquer outro, lusófono ou não, que ouse entrar no país sem pagar um Visto Gold.  

 

Seria mesmo irrelevante se não tivéssemos hoje, na política e no espaço público, ou até nas forças de segurança, gente que não hesita em estigmatizar grupos sociais, etnias, comunidades e pessoas em geral, pela sua diferença, pela sua ascendência, cor de pele, credo, orientação sexual, género e nacionalidade. Seria mesmo leviano achar que nada do que envolveu este crime está relacionado com um contexto sociocultural que privilegia uns em função de outros, perpetuando abusos: desde a forma como foi executado; à forma como foi atendido no primeiro instante; passando pela forma como foi ignorado; e posteriormente a forma titubeante como foi retratado, devido à pressão social. 

 

Além do ódio, a indiferença também mata. Lentamente, mas mata.

Manifesto Artístico: 125 anos de Florbela Espanca

Florbela Espanca

1. Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa, em 1894. Passaram 125 anos. Haveria muitas formas de começar este texto, mas os factos imperam sobre o mais prosaico dos lirismos. Portugal celebra 125 anos do seu nascimento; a Literatura celebra 125 anos da sua existência dissonante; as Mulheres celebram 125 anos da sua liberdade gritante; os calipolenses, em Vila Viçosa, podem entristecer-se com a falta que ela ainda nos faz. Pois, "a ironia é a expressão mais perfeita do pensamento", Florbela.

2. Há quem diga que viveu à frente do seu tempo. No mínimo, um século! Veja-se que, passados 125 anos, há em Vila Viçosa, uma ‘ombreia’, um busto e um jazigo, com seu nome talhado no mármore, nesse tão duro fruto que a terra nos dá. Mas o atraso nas artes, a falta de investimento sério na cultura, a inexistência de um planeamento estratégico e sustentável no âmbito da Cultura local, denunciam uma total e transversal incompreensão sobre o significado, o legado e a importância desta Figura. É que, “sentir é muito, [mas] compreender é melhor”, como ela mesmo disse.

3. Para homenagear alguém que, num derrame poético de metáforas e amor visceral, numa rebeldia que a levou a embater com os duros e pouco absorventes costumes da época, se refugiou no campo das ideias. Que criou mundos de metáforas e mergulhou na matéria sensível dos pensamentos, sendo perdidamente ímpar e singular. Para homenagear essa pessoa, é preciso mais do que um edifício, quase abandonado, com o seu nome embutido.

4. Para homenagear Florbela, há que criar! Há que plantar flores no imaginário, e colher frutos na estética das palavras, na forma dos sentidos e no calor das ideias. À imagem do que já mencionei noutros textos – e propus em sede própria – este Manifesto, é pelas Artes e pela Cultura, calipolenses e alentejanas. Pois: “a Arte não deve ser diferente da Vida, mas uma ação dentro dela. Como tudo na vida, com os seus acidentes e acasos, diversidade e desordem, e as suas belezas efémeras” (John Cage, 1952).

5. Proponho então esse ‘caos’, essa ‘diversidade e desordem’, e essa ‘ação’ dentro da vida cotidiana calipolense. Sendo mais do que um pretexto, uma necessidade intrínseca para todos os habitantes e apegados a esta terra profícua em produção, proliferação e reinvenção artístico-cultural.

6. A crise não pode ser desculpa! Pois, não há qualquer necessidade de um investimento em novas infraestruturas ou meios, quando estes já existem. Embora com pouco foco e nada, ou mal, rentabilizados. Nomeadamente, o Cineteatro Florbela Espanca, no coração da vila e em péssimo estado de conservação.

7. É preciso devolver à população este espaço de encontros! Um equipamento com um sem fim de possibilidades, tanto ao nível artístico e cultural, como ao nível turístico, indo ao encontro daquilo que nos define enquanto Calipolenses e Alentejanos. Um povo intimamente ligado à Cultura e às Artes, e cujos maiores vultos históricos são exemplo disso.

8. É fundamental que exista um compromisso alargado entre as ambições artísticas e as necessidades da população. Que se crie um ambiente de congregação, de criação e exibição nas mais variadas formas artísticas.

9. Precisamos urgentemente de uma Política e Programação Culturais em prol da Educação para as Artes, que inclua de forma participada a comunidade em geral – promovendo sobretudo uma aproximação entre os criadores e a população.

10. É preciso que exista uma aglomeração de sinergias, (por intermédio de várias instituições, municípios e plataformas civis) num espaço, num concelho e numa terra que seja digna dos seus artistas, dos seus poetas e do nome de Florbela Espanca. No mínimo que seja ou exista enquanto Casa de Cultura e Artes e que fomente a Prática, a Aproximação, a Apreciação, a Crítica e a Divulgação comunitária.

11. Pois, enquanto vivermos numa cidade, vila ou município, que nos crie a ansiedade de não possuir uma biblioteca municipal; que nos prive do acesso a uma livraria; que não nos mostre, incentive e ajude a participar de qualquer forma artística; que não tenha como missão ou plano incentivar, destacar ou proteger os seus artistas ou agentes culturais; que não investe na compreensão preservação e crescimento da cultura local; quando deixa e descarta todas as responsabilidades a entidades que a substituem na persecução do interesse comum; quando assim é, tudo fica em causa. Ficando em causa, sobretudo, a Cultura daquilo que fomos, somos e queremos ser. O que sobra é a agonia de fugir!

12. Porque, “muitas vezes as nossas mais delicadas atenções, as nossas maiores provas de amor, os nossos cuidados, são como aquelas pérolas que um dia alguém atirou a uns porcos…”, Florbela Espanca.

P.S.: Este texto foi inicialmente escrito e publicado a 8 de Dezembro de 2014, com o título "Manifesto Artístico | 120 anos de Florbela Espanca". Até então, 5 anos depois e 125 após a celebração do nascimento de Florbela Espanca, a necessidade e o abandono são os mesmos.

Fazer a Guerra em nome da Paz

EUA vs Irão

As maiores ameaças à liberdade e ao chamado "mundo livre" e global, hoje mais do que nunca, estão à frente de várias democracias liberais e a maior de todas comanda duas das instituições mais poderosas e destrutivas do mundo e do ocidente: a Casa Branca e o Pentágono. Após a influência conquistada com a vitória dos aliados sobre os nazis na Segunda Guerra Mundial, os EUA têm escolhido os seus inimigos a gosto, mitigando a capacidade de defesa e autonomia dos seus aliados e montando uma estrutura física, geopolítica e também virtual — não esquecer que as agências norte-americanas não só têm acesso aos cabos submarinos de telecomunicações como admitiram espiar os próprios aliados — que precisa de ser alimentada para se manter.

De lá para cá tem projetado, precipitado e amplificado os conflitos mundiais, quer com pretextos políticos, militares, comerciais ou morais, intervindo na autonomia interna de outros países (incluindo democracias), tanto com pretextos plausíveis, como inventados ou infundados. Com um investimento em arsenal militar que supera todos os orçamentos somados dos seus aliados, todos os presidentes dos EUA dos últimos 70 anos têm inaugurado ou herdado uma guerra por mandato. Guerras essas que funcionam tanto como resposta às crises do seu próprio capitalismo selvagem, como estratégia política e populista de reeleição em momentos de crise social interna, assim como resposta à exigência de manter uma posição permanente de hostilidade, justificando políticas isolaciinistas, proteccionistas e desumanas, de controlo, vigilância e punição, quer em regiões externas, quer em território nacional. Onde se inclui, por isso, também a guerra às drogas, ao terrorismo e a própria corrida às armas durante e após a Guerra Fria e a dissolução da URSS (que os EUA não queriam).

Em nome da liberdade, os EUA têm diminuído a liberdade mundial. Em nome da paz, têm causado a guerra. Assumindo-se como vanguardistas da libertação, os líderes do mundo ocidental têm comprado e embarcado nos conflitos armados projetados pelos norte-americanos, amordaçados à sua política externa e à dependência mútua, tanto bélica como financeira, que os une. Raras exceções houve onde pareceu nascer uma tentativa ténue de inversão de ciclo, através de blocos de contrapesos, que nesta altura ou estão também dominados por um paralelismo de políticas ou pela estagnação económica, social e política, fruto do bloqueio e intervenção internacionais, como acontece na esmagadora maioria dos países sul-americanos.

É importante referir que no meio deste esquema abstrato de ganhos e perdas da "Teoria dos Jogos", cada conflito custa vidas, gera mortes e destrói a esperança de milhões de pessoas, de todos os lados. Os milhões de refugiados da Síria (até há poucos anos um paraíso na Ásia Ocidental) não são alheios a isso, mas o reflexo direto das mortes que se estendem além do cenário de guerra e que chegam até à porta de quem procura não se importar com isso. Os migrantes no Mediterrâneo ou os cemitérios cheios de soldados americanos, a maioria pobres, resulta também de um negócio de vidas, onde uns fogem da guerra e da fome para morrer no mar; enquanto outros aceitam enfrentar a guerra para matar a fome, sustentar a família ou conseguir a nacionalidade, a troco da própria vida. Não existe bem ou mal, mas sim uma interpretação moral do contexto que aceitamos como boa ou má. Os atos de terrorismo não são uma exclusividade do suposto inimigo do ocidente, mas sobretudo uma estratégia para arregimentar apoio interno através do medo e do ódio. Muitas vezes, uma falsa bandeira que vimos erguida de um lado e esquecemos de procurar do outro.

O recente ataque dos EUA ao aeroporto internacional de Bagdade, matando o general iraniano Qassem Soleimani e também outros cerca de vinte e cinco oficiais iraquianos — aliados dos EUA — não só constitui um ato de terrorismo despropositado e gratuito, como resultará imediatamente numa escalada de tensão local que se pode alastrar a todo o globo. Podendo, no limite, arrastar-nos para um conflito mundial. Ao mesmo tempo que, ao que tudo indica, poderá precipitar uma nova crise do mercado energético, com o preço do petróleo a aumentar vertiginosamente, sem que tenhamos ainda uma alternativa plausível para a sua substituição nas cadeias de produção.

Entretanto, prevê-se que os media irão alanvacar o conflito consoante o interesse dos americanos, apesar de não ser muito inteligente. O perfil de Qassem Soleimani, por exemplo, já está a ser desenhado de forma parcial, empolando a sua importância na estratégia irania e ofuscado o seu papel no combate ao Daesh (Estado Islâmico).

A espionagem de que o Irão é agora acusado de exercer junto dos países limítrofes, não pode ser motivo ou justificação para agredir militarmente um pais soberano, caso contrário os EUA não estariam a salvo dos seus próprios aliados ou países vizinhos, por fazer o mesmo, em especial na América Central e do Sul, mas também na Europa. Um jogo de sombras no qual se tornaram peritos ao longo de anos, antecipando as próprias derrotas e executando ataques ou pressões cirúrgicas, num jogo de soma zero que visa o controlo, mais do que a liberdade. Se por um lado a retórica anti-imperialista do Irão, após a revolução de 1979, encaixa como uma luva na visão simplista de antagonismo cultural e civilizacional que tanto Trump como outros líderes mundiais querem vender aos seus eleitorados. Por outro lado, temos visto como Trump já falhou várias vezes ao lançar a isca de um conflito bélico, seja com o Irão, a China ou até com a Coreia do Norte, sem que ninguém tivesse mordido o anzol. Além disso, rodeado de bases americanas e com a ameaça latente de Israel junto às suas fronteiras (que não nega nem confirma a existência de armas nucleares) o Irão sabe os riscos que um confronto aberto e convencional lhe pode causar, à imagem daquilo que foram as duas guerras do Iraque e a da Síria. Porém, não será o medo que os limitará, mas sim a inteligência e o calculismo. Algo que não abunda do outro lado.

É provável que o confronto continue, mas de forma dissimulada e localizada, sem dar o flanco a uma invasão. Porém, este ato irresponsável dos EUA, depois de ter quebrado o acordo de cooperação nuclear entre os dois países, não só servirá de mote para uma crescente união em torno da hostilidade, como legítima o aquecimento da corrida às armas e a retoma de conflitos adormecidos em várias regiões, funcionando também de travão ou recuo das medidas de desenvolvimento sustentável e transição energética, condicionadas tanto pelos confrontos bélicos como económicos, em torno do capital energético. Adivinha-se, portanto, uma grande crise económica, social e humanística na entrada desta nova década.

Nada como estar de volta ao território do medo, com uma ameaça nuclear, para estimular o conservadorismo, a polarização e o antagonismo moral contra um inimigo externo. Coisas que costumam dar votos e fortalecer quem está no poder e é candidato a uma reeleição, após sofrer um impeachment no congresso. Trump pode ser louco, mas não é parvo.

À procura da Estrela Polar

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Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil: 40°C à sombra. Os cerca de 30% de humidade transportam o ar quente que se instala nos pulmões e nos dá uma sensação de dormência, fadiga e fraqueza. À porta do prédio a vizinha, com mais de 90 anos, magrinha, simpática, só com um trapinho leve no corpo, com um abanico na mão, diz que não tem como aguentar este calor. Chamou o neto para a ir buscar, vai para casa dele, aproveitar o ar-condicionado. Acrescenta que há quarenta anos que ali vive e nunca sentiu dias tão abafados, será que vai chover, pergunta, era bom, porque assim baixava a temperatura. Sem a querer desanimar confirmo a previsão, porém, menciono que nos próximos dias as temperaturas continuarão altas. Pois é, lamenta, é algo que não é daqui, anda no ar, muda as temperaturas e o clima, dizem eles, eu não sei de nada, é o que eles dizem. Sorri, para não mostrar desalento. Resiste e cheia de alegria deseja-me tudo de bom para o próximo ano e um forte abraço na minha esposa. Foi-se embora, no carro do neto, fazendo adeus com a mão, de sorriso aberto.

 

O suor escorre-me a fio pelo queixo abaixo. Cinco banhos por dia e o calor não suaviza a intensidade. A água fria sai da torneira à temperatura do corpo. Estes dias de calor intenso lembram-me as noites de Verão dormidas na varanda do meu avô, sob o céu estrelado. Saudades. Saudades de ser criança todos os dias.

 

A minha vizinha diz que os pais dela eram portugueses, mas em nove décadas lamenta que nunca tenha ido conhecer Lisboa. Sem lhe dizer, espero que o sonho dela se realize. Quem sabe este ano. Quem sabe num dia de Verão, no qual se possa refugiar na nortada da nossa origem mútua. Quem sabe ela possa finalmente conhecer o país onde o meu avô me mostrou o céu estalado nas noites de Verão. Talvez eu encontre a estrela que me olha lá de cima, nos dias quentes e nos dias frios.

 

Imagem de © Miguel Claro, "A Stargazer Shows Where to Find Polaris in the Night Sky". 

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