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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

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Quando faltar peixe nos oceanos a culpa é da Greta

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A maioria dos argumentos contra Greta Thunberg ou as causas ambientais assenta essencialmente em dois tipos de falácia: o argumentum ad hominem, quando alguém procura negar uma proposição (o aquecimento global) com uma crítica ao seu autor e não ao seu conteúdo (a necessidade de investir no Desenvolvimento Sustentável); e a falácia do escocês de verdade, uma tentativa ad hoc de manter uma afirmação não fundamentada ou apelar à pureza da coisa como forma de rejeitar críticas relevantes ou falhas num argumento (um verdadeiro ambientalista está no mar a recolher plástico; ou o verdadeiro problema do mundo é a fome). 

 

Entre eles depois vamos encontrado todo o tipo de variedades e absurdos, como o da "fome dos meninos em África". Ou então a comparação com o jovem inventor Boyan Slat (que só descobriram agora, por causa da Greta). Pois a verdadeira causa é sempre outra. Em vez de chamar à atenção para o problema de insustentabilidade global — gerada pelo consumo desenfreado, impulsionado pelos mercados desregulados, a produção excessiva e o foco no crescimento económico, que têm causado fome, miséria, guerras e catástrofes ambientais ao mesmo tempo que os recursos naturais se estão a esgotar, com milhões de espécies extintas, o degelo a provocar invernos cada vez mais intensos e verões abrasadores, a água potável cada vez mais escassa em quase todo o mundo (incluindo nos EUA e na Europa!!!) com milhões de pessoas a morrer de fome ou escravizados para produzir bens de consumo para os países desenvolvidos, principais consumidores e poluidores do mundo — em vez disso, ela devia estar a alimentar na boca todas as crianças que passam fome no mundo, ou a catar minas e a receber balas e mísseis de peito aberto para combater a guerra, ou a salvar as baleias uma a uma, ou a andar exclusivamente a pé, de preferência descalça, para evitar andar em qualquer meio de transporte que use uma gota de petróleo ou uma bateria de lítio. Já para não falar na ideia de que as questões climáticas são um embuste, ou na ideia de que a infância lhe está a ser roubada, ou porque há crianças que sofrem mais do que algum jovem europeu ou americano que ouse protestar contra a passividade dos governos mundiais, que assinaram já vários acordos climáticos sem a menor intenção de cumprir nenhum deles... Portanto, além de ela ser "irritante", "um verdadeiro ambientalista anda mas é a recolher plásticos", não anda por aí a reclamar contra a produção do plástico. 

 

Ora, uma das principais coisas defendidas, quer nos objetivos da ONU, quer em todas as matrizes do Desenvolvimento Sustentável, é a redução progressiva das desigualdades, quer entre países como entre povos, referendado os níveis excessivos da produção em massa e do consumo. Uma estratégia que passaria também pela contribuição internacional de ajuda humanitária e de mecanismos de compensação aos países menos desenvolvidos, que simultaneamente são os mais explorados e menos capazes de combater os efeitos do esgotamento do planeta, ao mesmo tempo que se devem promover medidas e políticas públicas que venham a erradicar a fome, a garantir o acesso à água potável e saneamento básico a todas as populações do mundo, bem como à saúde e educação. Medidas que fomentem uma distribuição de riqueza e simultaneamente a nossa capacidade de encontrar mecanismos de sustentabilidade local, através de métodos menos invasivos junto da natureza, algo que requer uma maior democratização e abertura da administração e políticas públicas, mas também uma maior mobilização e participação da população. É aí que a acção e discurso de Greta são tão importantes, mesmo que simbólicos, pois quando os peixes do oceano morrerem será tarde demais para matar a fome seja de quem for. 

 

Porque tanto a salvação do planeta e da biodiversidade dependem da defesa da humanidade, como a existência da humanidade e o combate às desigualdades dependem da subsistência das condições de vida da biosfera.

 

Foto © Greta Thunberg