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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Três desejos para 2020

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O ano de 2019 marca o final de uma década pautada pela ascensão de múltiplos movimentos populistas, que têm culminado na representação de cada vez mais poderes políticos de viés autoritário. Chegados ao final do ano, os meus desejos para 2020 e para a próxima década passam por três grandes pilares: Democracia, Socialismo e Sustentabilidade. Questões pelas quais nos devemos debater, abraçando a responsabilidade de mudar a sociedade e o contexto em que vivemos, compreendendo os seus paradigmas, e preservando a sua diversidade e pluralismo.

Democracia

Caminhando para democracias cada vez menos plurais, temos sido confrontados com regimes não necessariamente ditatoriais, mas que caminham nesse sentido: através da consolidação de partidos (e governos) de orientação de extrema-direita ou neofascista; com um brutal crescimento de movimentos negacionistas históricos e científicos; com o patrocínio do neoliberalismo; difundidos e amplificados através das redes sociais, cuja desregulação incita e pauta a pós-política e a ultra política como alternativa; e ainda com ecos no poder Judiciário, que tem sido incapaz de manter a sua suposta isenção (ou distanciamento) em vários países, interferindo diretamente na política nacional. Isto, juntamente com um elevado grau de despolitização crescente, tem conduzido ao desmonte das democracias e consequentemente à precarização do poder popular. Um processo que é gradual, mas dramático, que não pode ser ignorado.

O poder popular tem perdido espaço e representatividade (a pouca que tinha conquistado) ao depositar – fruto de vários motivos e da circunstância – o seu voto em personalidades e setores que têm usurpado os equilíbrios das denominadas Democracias Liberais, fazendo valer os seus projetos, vontades e ideais, seletivos e individuais, sobre os desejos e necessidades da comunidade. Assim, assistimos a uma década onde o povo tem votado e depositado esperanças em quem quer destruir os mecanismos de influência popular na sociedade, bem como as suas condições de vida e possibilidades de elevação social, desmantelando as liberdades e garantias conquistadas pelas diversas constituições.

Quando vimos que o neoliberalismo tem sido não só conivente, mas maioritariamente patrocinador e agente de promoção – juntamente com outros eixos, como o imperialismo – dos agentes intolerantes e autoritários que têm ascendido ao poder, eleitos com pautas ideológicas mórbidas, de caris anti-humanista ou antidemocrático, isso deve-se ao desígnio capitalista que na última década concentrou mais riqueza nas mãos de cada vez menos capitalistas. Ao ponto de que em 2019, pela primeira vez, nos EUA, os mais ricos pagaram menos impostos do que os mais pobres.

A classe operária e trabalhadora, que tudo produz e tudo faz, tem sido forçada a patrocinar uma máquina estatal que privilegia o capital improdutivo, protegendo os detentores dos meios de produção e das terras, que vivem de rendas de capital, de juros e isenções. Quando uma multinacional recebe uma borla fiscal para “gerar” postos de trabalho, o seu negócio torna-se o lucro que subtrai dessa isenção, que não é recíproca com os trabalhadores que produzem o restante lucro, os bens e os serviços, pagando impostos sobre os rendimentos do seu trabalho.

Este acúmulo de poder tem limitado a igualdade e a comunidade económica dos mais pobres, ao mesmo tempo que liberaliza, sem regulação, a transferência de capitais, da base da pirâmide para o topo. Sem fronteiras, sem restrições e sem contrapartidas.

Socialismo

Como resposta a isto, precisamos de mais Democracia. Precisamos de uma Democracia que seja ampliada e abrangente, capaz de incluir e dar poder (voz e decisão) a todos (sem exceção) e em pé de igualdade. Com debate, diálogo e participação. Uma Democracia capaz de se organizar de baixo para cima, englobando a participação popular na tomada de decisão. Uma tomada de decisão que seja apoiada e fiscalizada pelo poder popular, que dependa intrinsecamente dele, através de um sistema de vigilância, controlo e correção do estado pela classe trabalhadora. Uma Democracia pautada por valores socialistas, que vão além da distribuição de riqueza, onde a população seja efetivamente capaz de exigir das estruturas estatais uma atuação pautada pelo equilíbrio social. Uma democracia capaz de combater e travar a opressão e o cataclismo ambiental, programado.

Obviamente, algo assim só será possível com organização, força de vontade e práxis, no sentido que Paulo Freire lhe deu, como uma verdadeira unidade de diálogo entre o estilo e a prática, que nos permita ir corrigindo os erros e as contradições entre a ação e a reflexão, entre saber e atuação. Uma práxis que seja transformadora.

Isto é importantíssimo, sobretudo para todos os que se recusam a descer do pedestal de mármore, agindo, mesmo que na oposição, como forças imobilizadoras, centrados em si mesmos. É da dialética entre as massas e os educadores que nasce a solução e não da imposição ideológica. Por isso, é indispensável envolver as populações na ação política, como parte da solução. Porque a ausência desta práxis está a matar as utopias, no lugar das quais estão a surgir os movimentos contrarrevolucionários que apelam aos sentimentos básicos, ao autoritarismo, à discriminação e ao fanatismo. Onde os intolerantes estão a matar os tolerantes.

Sustentabilidade

Tudo isso tem rendido as pessoas ao economicismo e ao imediatismo, legitimando os abusos contra si mesmas. O mesmo imediatismo que anda de braços dados com o cataclismo ecológico e ambiental, promovendo todos os problemas relacionados com as Alterações Climáticas.

Não contente com aquilo que foi a lógica de exploração, expropriação e escravização dos últimos cinco séculos, o capitalismo selvagem tem-nos conduzido ao esgotamento dos recursos naturais, que procura monopolizar a todo o custo. Transformando a transição energética num negócio em vez de um paradigma. Veja-se o caso do golpe na Bolívia (após a estatização dos recursos de lítio), o caso do Chile, os desastres ecológicos no Brasil (desastre de Brumadinho, incêndios e desmatamento da Amazónia, petróleo no Nordeste, privatização de reservas ecológicas), tudo em 2019. Veja-se também aquilo que acontece no Congo nas últimas décadas, com crianças a serem escravizadas para trabalhar nas minas de cobalto.

Nesse sentido, é necessário compreendermos que as relações sociais, económicas e geopolíticas, não existem no vazio. Portanto, não é possível aceitar pequenas mudanças sociais e económicas, ou mesmo produtivas, se elas dependerem diretamente da exploração de outros grupos, esferas ou bases sociais. Não basta transferir o problema de lugar ou entregar o ónus da responsabilidade apenas ao consumidor (muitas vezes desinformado) mantendo as cadeias da exploração e expropriação intactas. A mudança deve ser transversal e universal.

Temos que interromper este ciclo de extorsão estrutural, de uma sociedade centrada no ocidente, onde os países mais pobres, que produzem a esmagadora maioria dos bens de consumo dos países mais ricos, são aqueles que mais sofrem com as consequências e os efeitos da poluição gerada sobretudo pelos países mais ricos e desenvolvidos. Temos também que refletir sobre a efetividade das metas e propostas apresentadas ao longo de meio século, cujos acordos contrastam com os dados de emissão de gases poluentes, num sistema económico altamente dependente do carvão, do petróleo e do gás natural, para não falar das usinas nucleares e o risco que representam.

Devemos refletir sobre as consequências de um sistema produtivo que explora até à exaustão os recursos de determinados países, onde esses mesmos recursos faltam. O Brasil é um dos maiores produtores de carne bovina do mundo, algo que leva ao desmatamento contínuo da sua floresta amazónica e atlântica. No entanto, o preço da carne em 2019 é tão alto que impede a maioria dos brasileiros de comerem carne de boi, de porco ou sequer de frango. Ao fim de 10 anos inativa, a campanha Natal sem Fome foi relançada este ano. O excesso de uns, é a falta de outros.

Destarte, a insustentabilidade é também e sobretudo uma questão democrática e política. Então, devemos combatê-la pelas mesmas armas. Pela organização social, o debate público e a democratização. Pela intervenção local, pela participação e por uma coletivização dos recursos naturais, cuja gestão deve antever as necessidades locais em primeiro lugar.

Muito provavelmente não será possível fazer isto em 2020. Talvez nem até ao final da próxima década. Porém, cá estaremos para enfatizar e lutar por ideais e políticas semelhantes, seja até 2030 ou até final do século.

Feliz 2020 a Todos! Até breve! 

"Filha do medo, a raiva é mãe da covardia"

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Recuso-me a debater os limites do humor quando estão em causa os limites da violência. Limites esses que têm sido extrapolados sem contraditório, sem restrições nem punições, diminuindo as nossas liberdades e garantias. Entre elas, a liberdade de expressão, artística, de pensamento e de existência. É por aqui que deve começar a crítica à intolerância, ao ódio e à violência que estão na origem do ataque terrorista ao Porta dos Fundos, em tudo igual e semelhante aos vários que aconteceram no Charlie Hebdo (não necessariamente o último). 

 

Essa é a principal armadilha: enquanto as milícias virtuais (que já fazem ataques às pessoas nas redes sociais e na Internet há vários anos ) começam a ir para as ruas, promovendo uma orda de ataques físicos e terroristas que visam ocupar as ruas, o espaço público e privado, através da força e da dominação, para nos silenciar (às vezes com a própria vida) ou autocensurar; não podemos ficar perdidos no debate sobre o que é ou não arte, o que é ou não comédia, o que é ou não permitido expressar livremente numa opinião, política ou não.

 

Ao mesmo tempo que mergulhamos no obscurantismo, vamos perdendo espaço para a violência e o medo. É isto que está a acontecer, sem comoção, sem contraditório nem reacções das instituições ou da sociedade, como forma de repúdio coletivo e expresso a esta barbaridade. Fomos da homofobia ao fanatismo com cocktails de molotov. 

 

Por outro lado, temos os argumentos e debates de "justificação", que têm como base uma intolerância velada à crítica e ao escárnio, à diferença e à liberdade de pensamento, sendo, por isso, tendencialmente autoritários. Uma posição que procura flexibilizar a violência, utilizando a adversativa para abraçar a agressividade e a crueldade, o fanatismo e o descontrolo, como forma de estar. Uma forma de vírus que está a degradar o sistema imunitário da sociedade.

 

É fundamental parar com esta relativização do fanatismo (religioso ou de qualquer tipo), apoiado numa idea de guerra cultural e de atomização dos valores humanos, que está a provocar uma brutal fissão do espaço democrático, em vários países, bem como uma evaporação das nossas liberdades e garantias, árduamente conquistadas ao longo de décadas.

 

Não é o humor nem a arte, aliás, como sempre, que devem ser censurados ou limitados, na sua autópsia sobre a sociedade. Mas sim os discursos, atitudes e narrativas que conduzem à selvajaria intolerante, como patologia de uma doença social grave que estamos a viver e que deve ser levada a sério, sob pena de uma morte lenta e agonizante de toda a estrutura moral, ética e filosófica que está na base da nossa arquitectura democrática.

 

"Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria

Filha do medo, a raiva é mãe da covardia

Ou doido sou eu que escuto vozes

Não há gente tão insana

Nem caravana do Arará

Não há, não há"

"As Caravanas", de Chico Buarque, faixa do álbum "Caravanas" (2017). 

A Pirralha do ano

Person of the Year 2019 TIME

Todos os anos, a revista TIME lança a edição sobre a "Pessoa do Ano" (Person of the Year), que destaca o perfil de um homem, mulher, casal, grupo, ideia, lugar ou máquina que "para o bem ou para o mal, mais influenciou eventos no ano". A personalidade de 2019 da TIME é Greta Thunberg, eleita pelo seu activismo ambiental, que começou com as suas greves pelo clima e que hoje se tornou num movimento mundial. 

 

A revista, cuja capa conta com uma magnífica fotografia tirada em Lisboa, Portugal, a 4 de dezembro de 2019, por Evgenia Arbugaeva, faz o relato de como Greta transformou a sua depressão, ao ser confrontada com um documentário sobre as causas e efeitos das Alterações Climáticas no planeta, numa luta séria e militante para exigir mudanças, primeiro do governo sueco, depois dos governos que compõem a ONU, da cúpula de Davos e de cada um de nós. Uma luta contra a destruição do planeta, a morte de milhões de espécies e contra o sofrimento dos povos originais e dos mais pobres, os primeiros a serem afetados pelos efeitos colaterais do aquecimento global. 

 

Uma luta que começou sozinha, à qual se juntou mais um, dois, dez, oitenta e que hoje conta com milhões espalhados por todo o mundo, com a greve global às aulas pelo clima, às sexta-feiras. Uma luta que inspira jovens ativistas da mesma idade que ela, ou pouco mais velhos, que identificam os alertas científicos sobre as Alterações Climáticas como o tema mais importante e urgente do século. Uma luta que é seguida de uma práxis rigorosa, funcionando como exemplo da prática necessária para corroborar o discurso e a missão. Exemplo disso é o facto de toda a família ter deixado de comer carne e de viajar de avião, tendo atravessado o Atlântico, duas vezes, num pequeno barco. Um sacrifício simbólico, mas ao mesmo tempo "insuficiente", como ela própria diz. Pois os níveis de carbono na atmosfera continuam a subir, apesar das tentativas individuais de reduzir a nossa pegada ecológica, as indústrias e os governos continuam a navegar na incerteza e assim "não temos futuro".

 

Porém, apesar de tudo isso, esta jovem atacada de todos os lados, seja pelos seus maneirismos, seja pela sua idade, sexo, ou até pelo síndrome de Asperger — diagnóstico ao qual Greta agradece pela capacidade de concentração e obstinação, ao mesmo tempo que reflete genuinamente as suas emoções e reacções perante os seus interlocutores — ainda assim ela tem conseguido alguns resultados, em vários países, ténues mas suficientes para empoderar os jovens que nela se inspiram e também os cientistas e outros ativistas a quem ela quer dar visibilidade e voz. A voz de uma jovem adolescente temida por adultos inconsequentes que procuram atacar e insultar o mensageiro, em vez de mudar o paradigma mundial. A voz de uma "Pirralha", que não mata, mas mói quem se opõe a ela e aos milhões de jovens que querem preservar o seu futuro. 

 

A "Pirralha" que nos está a forçar a encarar a necessidade de mudar os nossos hábitos compra de bens de consumo descartáveis e desprovidos de valor de uso, assim como os sistemas de produção em massa e de exploração desenfreada dos recursos naturais, que estão a colocar em risco os ecossistemas, ao mesmo tempo que nos estão a conduzir para um cataclismo ecológico, extinguindo milhões de espécies e destruindo as condições de vida de milhões de pessoas. Tanto por causa dos impactos ambientais, como por enfrentarem a destruição e exploração com o custo das próprias vidas.

 

Não! Recolher o plástico não chega. É preciso produzir menos plástico, utilizar menos combustível fóssil, queimar menos carvão, redefinir os nossos hábitos de alimentação, regular as indústrias e a energia, os meios de exploração de recursos naturais e o impacto dessa exploração na natureza, nas comunidades locais e no planeta. Por isso, é também necessário que haja uma distribuição de rendimentos mais justa, um investimento focado na sustentabilidade local e uma maior inclusão das pessoas, dos cientistas e dos agentes da práxis nesse processo de mudança. Porque a esperança do futuro não está nos governos e nas corporações, mas sim "no povo", como Greta Thunberg disse, na COP25, em Madrid. 

A subversão como poder de autonomia

Ipanema, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil - 2019

A subversão sempre foi a maior arma dos oprimidos. A 8 de Dezembro celebra-se o dia de N. Sra. Da Conceição, Imaculada sem Pecado, Mãe de Jesus Cristo, Padroeira de Portugal, cujo principal santuário está situado em Vila Viçosa, casa mãe dos Bragança, última dinastia das monarquias portuguesa e brasileira, que a coroaram após reconquistar a independência de Espanha, em 1640. Atrai tantos devotos e histórias, que no Brasil, Conceição é ainda hoje um dos nomes mais utilizados, a par de Maria, que também em Portugal se tornou quase hegemónico entre as mulheres. A minha mãe, que cresceu junto ao santuário onde depois eu fui acólito durante uma década, chama-se, claro, Maria de Jesus.

 

Mas nas colónias portuguesas, sobretudo no Brasil, a fé não era uma questão de liberdade ou devoção. Os colonizadores, que descendiam dos primeiros templários, tinham como missão a evangelização e os escravos tinham como obrigado despir-se da sua identidade, das suas crenças e obedecer às ordens do império, dos donos da terra, dos senhores das senzalas, dos capatazes ou dos capitães de mato, na ausência de qualquer um dos outros. A maioria não sabia a quem obedecia ou por que tinha de obedecer, só sabia das consequências de não o fazer.

 

Daí nasceu o sincretismo, a fusão de diferentes doutrinas e práticas religiosas, entre as obrigatórias e as proibidas, como estratégia de liberdade, subversão e sobrevivência. Sinal de inteligência. Assim nasceu a Mãe Oxum, mãe de Logum Edé, seu único filho, senhora do amor e da fertilidade, mulher forte, guerreira e independente, separada do pai do seu filho, Oxóssi. Orixá Mãe do Amor, Oxum é a mulher negra que peita os aborós, impondo as suas vontades sublinhando o valor das mulheres em todas as coisas da terra e em todos os princípios da humanidade.

 

Oxum é celebrada no mesmo dia que N. Sra da Conceição, a 8 de Dezembro, unindo a força de ambas e diversificando a identidade e representação de cada uma, unindo os dogmas e dividindo as oferendas, em prol da sua protecção, do doce do seu amor e da força das suas convicções.

 

O povo negro foi destituído de toda a sua identidade, durante séculos, mas foi capaz de se erguer e reinventar, sem sucumbir às perversidades quotidianas. A matriz dessa inteligência, esperança e perspicácia, de quem vivia no inferno, reflete-se hoje no enorme legado cultural que chega até nós.

Querido Pai Natal, afasta-nos do ódio

Pai Natal

Querido Pai Natal,

Peço desculpa pelo atraso, em três décadas é a primeira vez que te escrevo. Nunca te mandei uma carta, um e-mail, uma mensagem e nem sequer um áudio. Nada. Portanto, espero que leves em consideração esse atraso e que ainda vá a tempo de cobrar os pedidos que ficaram por realizar.

É irrelevante justificar o bom comportamento da minha infância, mas garanto que foi exemplar. Tinha boas notas, participava de atividades extracurriculares, ajudava na igreja, fazia voluntariado, amei o próximo e ajudei desconhecidos e até deixava os meus primos ganhar nos jogos de tabuleiro. Confesso que duvidava da tua existência, mas sempre aceitei de bom grado e com alegria aquilo que por ventura recebia.

Na verdade, tive a sorte e o privilégio de nascer num país e numa época onde as necessidades eram poucas e as oportunidades eram muitas. Apesar das carências, todas as crianças têm acesso à escola, a hospitais e centros de saúde e a fome é residual ou mínima. Graças a isso, a maioria tem ou terá a oportunidade de tentar alcançar os seus sonhos, por mais deslumbrantes que sejam e por mais dificuldades que enfrentem. Se possível, não deixes que ninguém mude isso.

Todavia, o motivo desta “carta” é outro e sobre outra realidade bem diferente. Não vou descrever os dados da miséria e da pobreza no Brasil. Tu já os conheces, de certeza. Estou a escrever para te avisar de outras duas cartas que vais receber. Ambas de duas meninas, de 11 anos, a Allana e a Aline, cujos principais desejos neste Natal (e noutros) passam por ter material escolar para estudar, aprender a ler e a escrever e ir à escola. A primeira teve ainda a nobreza de pedir uma boneca e um carrinho para a mana, de 2 anos.

Essas duas cartas a que tive acesso, Pai Natal, partiram-me o coração. Porque por mais que eu e outras pessoas, familiares ou amigos, possamos ajudar essas meninas – com todo o material escolar que precisam para começar o ano letivo que vem com alguma decência – sei que não vamos poder eliminar a pobreza que lhes rouba oportunidades, nem sequer diminuir os fatores de desigualdade que impedem que cresçam e vivam em pé de igualdade com as outras crianças, deste e de outros países. Mas talvez tu consigas, afinal, quem viaja o mundo inteiro numa noite pode tudo.

A meio da sua carta, a pequena Aline diz assim “ah, eu gosto tanto do Natal porque é tão, tão bom os abraços e os beijos, os carinhos, nesse tempo temos que deixar as mágoas e as brigas de lado”. Por favor, Pai Natal, não só neste tempo, mas no resto do ano, afasta o ódio do coração dos homens que nos têm expropriado do projeto humanista que ergueu a sociedade. Não me ouças a mim, ouve a pequena Aline, que ainda acredita no mundo e merece conquistar os seus sonhos.

Sinceramente, João.

Quando faltar peixe nos oceanos a culpa é da Greta

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A maioria dos argumentos contra Greta Thunberg ou as causas ambientais assenta essencialmente em dois tipos de falácia: o argumentum ad hominem, quando alguém procura negar uma proposição (o aquecimento global) com uma crítica ao seu autor e não ao seu conteúdo (a necessidade de investir no Desenvolvimento Sustentável); e a falácia do escocês de verdade, uma tentativa ad hoc de manter uma afirmação não fundamentada ou apelar à pureza da coisa como forma de rejeitar críticas relevantes ou falhas num argumento (um verdadeiro ambientalista está no mar a recolher plástico; ou o verdadeiro problema do mundo é a fome). 

 

Entre eles depois vamos encontrado todo o tipo de variedades e absurdos, como o da "fome dos meninos em África". Ou então a comparação com o jovem inventor Boyan Slat (que só descobriram agora, por causa da Greta). Pois a verdadeira causa é sempre outra. Em vez de chamar à atenção para o problema de insustentabilidade global — gerada pelo consumo desenfreado, impulsionado pelos mercados desregulados, a produção excessiva e o foco no crescimento económico, que têm causado fome, miséria, guerras e catástrofes ambientais ao mesmo tempo que os recursos naturais se estão a esgotar, com milhões de espécies extintas, o degelo a provocar invernos cada vez mais intensos e verões abrasadores, a água potável cada vez mais escassa em quase todo o mundo (incluindo nos EUA e na Europa!!!) com milhões de pessoas a morrer de fome ou escravizados para produzir bens de consumo para os países desenvolvidos, principais consumidores e poluidores do mundo — em vez disso, ela devia estar a alimentar na boca todas as crianças que passam fome no mundo, ou a catar minas e a receber balas e mísseis de peito aberto para combater a guerra, ou a salvar as baleias uma a uma, ou a andar exclusivamente a pé, de preferência descalça, para evitar andar em qualquer meio de transporte que use uma gota de petróleo ou uma bateria de lítio. Já para não falar na ideia de que as questões climáticas são um embuste, ou na ideia de que a infância lhe está a ser roubada, ou porque há crianças que sofrem mais do que algum jovem europeu ou americano que ouse protestar contra a passividade dos governos mundiais, que assinaram já vários acordos climáticos sem a menor intenção de cumprir nenhum deles... Portanto, além de ela ser "irritante", "um verdadeiro ambientalista anda mas é a recolher plásticos", não anda por aí a reclamar contra a produção do plástico. 

 

Ora, uma das principais coisas defendidas, quer nos objetivos da ONU, quer em todas as matrizes do Desenvolvimento Sustentável, é a redução progressiva das desigualdades, quer entre países como entre povos, referendado os níveis excessivos da produção em massa e do consumo. Uma estratégia que passaria também pela contribuição internacional de ajuda humanitária e de mecanismos de compensação aos países menos desenvolvidos, que simultaneamente são os mais explorados e menos capazes de combater os efeitos do esgotamento do planeta, ao mesmo tempo que se devem promover medidas e políticas públicas que venham a erradicar a fome, a garantir o acesso à água potável e saneamento básico a todas as populações do mundo, bem como à saúde e educação. Medidas que fomentem uma distribuição de riqueza e simultaneamente a nossa capacidade de encontrar mecanismos de sustentabilidade local, através de métodos menos invasivos junto da natureza, algo que requer uma maior democratização e abertura da administração e políticas públicas, mas também uma maior mobilização e participação da população. É aí que a acção e discurso de Greta são tão importantes, mesmo que simbólicos, pois quando os peixes do oceano morrerem será tarde demais para matar a fome seja de quem for. 

 

Porque tanto a salvação do planeta e da biodiversidade dependem da defesa da humanidade, como a existência da humanidade e o combate às desigualdades dependem da subsistência das condições de vida da biosfera.

 

Foto © Greta Thunberg