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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Coitados dos pobres que se julgam ricos

Alfredo da Cunha-Tipografia no bairro da Graça

Os pobres tudo fazem e nada têm. Aos pobres tudo lhes é exigido e tudo lhes é tirado. São os pobres que limpam as calçadas das ruas e recolhem o lixo. São os pobres que atendem os aleijados nos hospitais e que os socorrem nas suas casas. Os pobres são mecânicos, lavradores e pescadores, motoristas e operários, estivadores e secretários. São eles os obreiros da colmeia da sociedade que levam o alimento à boca de todas as pessoas, os medicamentos a todos os doentes, os trabalhadores a qualquer trabalho, casa e diversão. São eles que fazem os gelados da gelataria, as pipocas do cinema, que metem palavras na boca dos atores e recolhem as migalhas no chão das salas de espetáculos. Os pobres tudo fazem e tudo querem, mas nada é seu.

São os pobres que montam as peças de cada carro, computador, telefone e fio de rede. São eles que arrancam a murros os ferros e metais dos solos onde eles se escondem. São os pobres que se arriscam no mar, por peixe, cardumes e marés de óleo. Sal das lágrimas entre viagens e sacrifícios, pelo salário remanescente do lucro empresarial. São os pobres que amassam o pão que o diabo comeu, esse glutão que muito lhes promete e nada lhes deu. São os pobres que choram, longe das suas famílias, deslocados em muitos estados, físicos de corpo e alma quebrados pelos pedaços de dor sofrida, na corrente dos dias mortos, pelas balas perdidas e pela injustiça dos seus donos. Resta aos pobres a solidariedade.

Os pobres são os polícias que patrulham as ruas de dia e de noite, e os bombeiros que lutam contra os fogos e as enchentes. São os pobres que dão corpo aos exércitos que morrem sem motivo e que sem motivo matam. São os pobres que cavam os buracos das covas nos cemitérios, onde jazem por fim, os ricos e os pobres, comidos pelos bichos sem distinções nem critérios.

Mas se os pobres tudo fazem, nada lhes é oferecido. Devem andar de cabeça baixa e evitar o nariz erguido. Sob pena de reprimenda, o luxo não lhes é permitido. Ficam vedados na pobreza, sem acesso aos seus pedidos, impedidos de desfrutar de qualquer riqueza que lhes seja devida. Não podem ter o carro, sem pagar os juros devidos. Já os muros da casa erguida, só com altas prestações, hipotecas e seguros de vida. A moral não permite casacos caros nem relógios de marca, já os telemóveis só são necessários, se for para seguir as publicações da manada. Assim brigam os pobres para aferir quem são os miseráveis e os menos ricos. Os pobres são todos anónimos.

Os pobres são os professores e os alunos, as crianças e os adultos, neste jogo viciado de ilusões e lições por aprender, onde não lhes é permitido questionar nada que não seja o seu dever. Dever de quê? De viver, trabalhar e morrer.

Os pobres, que não vivem dos rendimentos da terra, se não do seu produto; nem dos lucros do trabalho, se não do seu valor; que servem aos poderes, sem nunca ser servidos; deviam poder tudo deter, como direito adquirido. Ao contrário disso, andam de queixo e ombros caídos, em vez de lutar unidos com os braços erguidos. Essa é a sina dos pobres, mesmo os convencidos de ricos.

© Foto de Alfredo Cunha. Tipografia no bairro da Graça, Lisboa. Portugal, 1974.