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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

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ENTRE OS LIVROS E A VIDA

Uma viagem à Feira do Livro de Porto Alegre

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Um dos dois amores da minha vida, a Thaís, levou-me pela mão até ao outro, os livros. Como criança grande que sou, como a minha irmã sempre diz, “o maior dos mais pequenos”, entrei diretamente pela área infantil, preenchida pela magia nos olhos das crianças das escolinhas, deslumbradas pela encenação teatral de “as mil e uma noites”. Dali deambulámos pelas artérias da feira, até desembocar n’ “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano, que acabei trazendo para casa. Não antes de me perder entre outras obras, além dos clássicos da literatura, ou outros menos ortodoxos, como as aventuras e desamores de Henry Chinaski, alter ego de Charles Bukowski, ou sobre como “Ser escravo no Brasil” de Kátia de Queirós Mattoso, ou a “Escravidão” de Laurentino Gomes, ambos espelhados pela pegada de África desenhada na calçada da Praça da Alfandega, pelo Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre. Junto a ela o café, outrora fruto dessa escravidão, que tantos livros alimentou ao longo dos séculos e que ainda hoje nos mantém acordados, mesmo que adormecidos perante o desprezo pelas letras no mundo.

Fotografei o fotógrafo, que ainda bate chapas nas ruas, o Sr. Varceli Freitas Filho, com mais de 65 anos, é o último “Lambe-Lambe” de Porto Alegre. Ele fotografa todos os dias da semana junto ao Chalé da Praça XV e aos domingos no Brique da Redenção. Lá estava ele, aguardando a curiosidade dos incautos pela magia da fotografia, entre os mestres do jogo de damas, também eles parte indissociável daquele espaço, os vendedores de artesanato e os cavalos da brigada. Quem não conseguia ver nada disto eram Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana, cujas estátuas tinham sido tomadas de assalto pelas crianças que se encavalitavam aos seus ombros e colo. Nunca ambos sonharam que os seus versos viessem a despertar tanto amor de gente que ainda está a aprender o que é a vida.

A vida é feita destes encontros. Como encontrar os livros de Gonçalo M. Tavares e de José Luís Peixoto em destaque numa banca e quando os agarrei as moças da livraria imediatamente questionaram se já conhecia o segundo autor. Confirmei que partilhamos a nacionalidade e até mesmo o Alentejo como berço, falei de como comecei a ler José Luís Peixoto e do seu magnífico “Abraço”, elas recomendaram “A Criança Em Ruínas”, e depois de ler o trecho em destaque na contracapa, mandei foto à minha irmã, que afirmou que seremos sempre os quatro lá em casa, apesar de tão longe. “Este autor só traz coisas boas”, disseram elas, fascinadas com estes encontros e desencontros que a literatura proporciona, entre o fascínio das palavras e a magia das histórias embaladas pelos sentimentos. Sentimentos tão puros como os da menininha agarrada ao coração.

Voltámos de alma cheia e de coração aberto, afinal, não é todos os dias que se sobe ao céu e se desce pela mão de um anjo, na certeza de que nunca nos faltará amor para dormir com os querubins.