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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

CONTRA O ÓDIO "O AMOR VAI VENCER NESTE PAÍS"!

RODOLFO BUHRER/REUTERS

Ao fim de 580 dias injustamente preso, Lula da Silva foi solto e acolhido pela multidão, que durante todos estes dias lhe fez uma vigília permanente à porta da Polícia Federal. Frente à multidão, que o recebeu com amor, ele devolveu: “vocês eram o alimento da democracia que eu precisava para resistir”! 

 

Depois de ler a lista com os nomes de cada um dos que coordenaram a vigília durante todo este tempo, Lula apresentou a sua atual namorada e futura esposa, que beijou em seguida. Mesmo preso, como ele sublinhou, não deixou de procurar o amor, de lutar pelo país, de perseguir a Justiça e a defender a Democracia. Não desistiu da vida, não desistiu da liberdade, nem desistiu de acreditar na sociedade e no povo brasileiro, porque aqueles que o prenderam “tentaram matar uma ideia, uma ideia não se mata, uma ideia não desaparece”!

 

“Meu coração só tem espaço para o amor, porque o amor vai vencer neste país”, disse ele. Depois de um projeto político que se instalou no poder através do ódio, chega a ser arrepiante e emocionante que o principal líder dos movimentos que lhe resistem, aquele que mais sofreu com esse ódio, aquele que despertou tanta repulsa, tenha uma mensagem de amor para transmitir ao povo. 

 

Ao mesmo tempo, deixando claro que não guarda mágoa a ninguém em especial, confirmou a “vontade de provar que este país pode ser melhor”. É isso que todos queremos ou devíamos querer. Ainda está longe, mas parece cada vez mais próximo. Como uma estrela no céu, cujo brilho consegue iluminar a noite, esperemos que este seja o primeiro passo para uma constelação que faça luz na escuridão que se abateu sobre o Brasil.

Foto de RODOLFO BUHRER/REUTERS

Viva Lula! 

O TRABALHO E A IDENTIDADE

“Operários”, de Tarsila do Amaral, 1933, óleo sobre tela, 150cm × 205cm, Palácio Boa Vista.

Não há almoços grátis, mas ainda existe muito trabalho gratuito. Pior do que o trabalho mal pago é a moda cada vez mais recorrente da substituição do valor do trabalho por bens ou serviços, o chamado trabalho "voluntário". Por isso mesmo, os direitos trabalhistas não podem ser excluídos da base do discurso político e do campo de batalha no espectro democrático. Muito pelo contrário, devem estar no centro da luta social contra o avanço descomunal da desregulação e da onda autoritária que a acompanha.

 

Porém, estes só serão efetivos se forem acompanhados paralelamente de uma pauta (também) identitária, capaz de garantir que a redistribuição da riqueza espelhe também a diversidade social da qual o mercado de trabalho é e deve ser feito. Sem isso, nada vale a pena, pois estaremos apenas a caminhar para o passado. Por isso, não acredito que as duas sejam conflituantes ou excludentes. Embora seja mais fácil esquecer a segunda quando pertencemos ao grupo mais favorecido dos desfavorecidos. Quando somos brancos, heterossexuais e homens, ao contrário de muita gente para quem ser diferente disso representa muitas vezes a negação do acesso ao trabalho, à família, à saúde, à educação, à justiça e à dignidade ou a diferença entre a vida e a morte. Ninguém pode abdicar de ser quem é ou do percurso que fez de si quem é.

 

Sobretudo, porque são essas diferenças que têm servido para perpetuar uma discriminação de acesso aos direitos fundamentais, como a liberdade (em todos os sentidos) e a igualdade de acesso às oportunidades e aos rendimentos. Todos serão trabalhadores, mas uns são menos pagos, menos empregados e menos respeitados ou reconhecidos simplesmente por serem quem são, e isso está mal. Isso é uma injustiça. Enquanto assim for, nenhuma conquista será verdadeiramente universal.

 

Algo ainda mais evidente quando se tratam de sociedades onde estas pessoas constituem a maioria efetiva da população. Uma maioria silenciada que se vê excluída de uma participação plena na sociedade que se constrói e desenvolve, não só com o seu esforço, mas às custas da sua desigualdade. Ou a luta de classes se faz com todos e por todos, ou se limita a substituir os privilégios de uns pelos dos outros. Ou melhor, a substituir o trabalho "voluntário" de uns pelo trabalho "gratuito" de outros...

 

Uma coisa não pode excluir a outra e vice-versa, pois se a identidade pode provocar ojeriza e antipatia das massas, as afinidades de classe por si sós também não serão suficientes para apagar as marcas dessa repulsa. Pois ela ultrapassa qualquer privilégio que a transferência rendimentos ou o elevador social possam prover.

 

Imagem: “Operários”, de Tarsila do Amaral, 1933, óleo sobre tela, 150cm × 205cm, Palácio Boa Vista.

O FASCISTA É COVARDE!

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Quando não te consegue convencer ou persuadir, o fascista ameaça-te. Seja de forma velada, direta ou indiretamente, ele ameaça a tua integridade, a tua intimidade, a tua reputação, ameaça o teu trabalho, ameaça a tua família ou os teus amigos e conhecidos. Se não é capaz de te vergar pelo medo e o ódio aos outros, ele procura vergar-te pelo medo a ele. Se mesmo assim não conseguir calar-te, então ele torna-te no alvo do ódio, juntamente com todos os seus inimigos imaginários. O fascista não admite contraditório. Na iminência do confronto de ideias ele prefere eliminar o interlocutor.

 

Acusado pela covardia de ter atacado os dois filhos menores de idade adotados pelo casal Glenn Greenwald e David Miranda, o jornalista Augusto Nunes resolveu provar a sua covardia ao agredir fisicamente um colega jornalista, galardoado com um Pulitzer e o pai dessas duas crianças.

 

Desde que denunciou os abusos da Lava Jato e de Sérgio Moro, no Brasil, já fizeram quase tudo com Glenn Greenwald. Depois de agredido fisicamente, só falta mesmo prendê-lo ou matá-lo. É este o perigo que quem enfrenta os fascistas de frente corre. O programa Pânico, da Jovem Pan, onde o jornalista Augusto Nunes deu uma bofetada na cara do jornalista do The Intercept, é um ninho de fascistas há muitos anos, onde constantemente se tentam destruir reputações através de propaganda fascista e odiosa.

 

Poucas pessoas que tenham ido ao programa, sem serem fervorosas adeptas do discurso radical, alienado e extremista dos seus intervenientes, saíram ilesas desse confronto: onde não há liberdade de contraditório, onde não há possibilidade de expressão de um raciocínio lógico, onde não há espaço para terminar um argumento ou uma explicação. É um fosso de ignorância para onde os opositores ou quem quer que seja menos alinhado com a atual extrema-direita brasileira é levado para abate.

 

Tanto o vídeo da bofetada, como o vídeo das declarações onde Augusto Nunes faz insinuações de negligência sobre a parentalidade de Glenn Greenwald e David Miranda, são reflexo do nível abjeto a que os colaboracionistas do atual regime estão dispostos a descer, numa avalanche de covardia e violência, onde os reacionários procuram silenciar os denunciantes das suas falhas, erros e abusos flagrantes. Mas ainda pior que isso é saber que há um público que aplaudiu, nos dois momentos.

 

É isto que está errado. Como tal, Glenn Greenwald merece toda a nossa solidariedade e proteção, que já lhe devíamos depois de denunciar ao mundo a rede de crimes e influências escondidas e encobertas pelo poder. Porque enquanto ele tem desempenhando um papel fundamental para a democracia, os que o agridem querem apenas acabar com ela.