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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

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Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

RACISMO NÃO É OPINIÃO, É CRIME!

IMG_20191010_161209.jpgA principal diferença entre quem combate o fascismo latente de alguns políticos e quem os apoia ou isenta, afirmando que "opiniões não se discutem" e que "o que importa é a representatividade", é a seguinte: enquanto nós lutamos pela liberdade de todos, eles exigem o nosso silêncio.

 

Calar e ser omisso face à barbárie racista, xenofoba, homofóbica e misógina, é pura condescendência criminosa perante um atentado contra a humanidade.

 

Porém, parece que os racistas criaram uma petição com a intenção de proibir a recém eleita deputada do Livre, Joacine Katar Moreira, de tomar posse na Assembleia da República. Depois de uma campanha pública de ódio em função da sua cor de pele, por ser negra, contra a sua capacidade intelectual, por ser gaga, contra a liberdade individual, por ser mulher, agora, os mesmos racistas e misóginos apelam à xenofobia contra a sua origem guineense, por ter erguido uma bandeira de Guiné-Bissau nos festejos da noite eleitoral. 

 

Para este grupo social que defende este tipo de pensamento que atenta contra qualquer Liberdade, os negros, os ciganos e os estrangeiros só têm valor quando estão ao seu serviço. Quando vestem camisolas da selecção nacional, marcando golos contra França, ganhando o Campeonato da Europa, por exemplo. Caso contrário, não têm direto sequer à nacionalidade, muito menos à representação parlamentar. Para eles, as pessoas portadoras de limitações físicas ou mentais, no máximo, servem apenas para ganhar medalhas Paralímpicas. Já as mulheres, se não for para apresentar programas de televisão, posar em revistas masculinas ou nas redes sociais - com um determinado tipo de corpo - devem ser relegadas à bancada da cozinha e não do Parlamento. 

 

Joacine podia ter sido apenas mais uma vítima do racismo ou do machismo estruturais, que durante séculos têm garantido os privilégios de uns, em função da discriminação de outros, mas não. Ela, assim como Beatriz Gomes Dias ou Romualda Fernandes, resolveu ser uma heroína apesar das circunstâncias, apesar de todas as dificuldades e contradições. E é precisamente por ser um exemplo dissidente que está a ser alvo de tantos ataques. 

 

Ataques que vêm de uma onda de degradação moral e intelectual que quer manipular a opinião pública, onde se instalou a ausência de pensamento crítico e uma constante banalização do absurdo. Começa, portanto, a estreitar-se a distância entre o que agora se vive e o apertar o botão de uma câmara de gás.

 

Enquanto democratas, lutar contra isso é uma necessidade e um imperativo lógico, de carácter social, político, legal e humanitário! 

DESINFORMAÇÃO DEGRADA O DEBATE PÚBLICO

© Vasco Gargalo

A desinformação é uma das principais estratégias de movimentos populistas ou extremistas, como aqueles que começaram a surgir um pouco por todo o mundo, explorando a violência da ignorância, disseminada em comportamentos de matilha. 

 

Dizer que o Livre, BE e PCP são extrema-esquerda é uma invenção. Em termos de teoria política, no máximo podiam ser enquadrados dentro daquilo que se chama a "Esquerda Radical", por nascerem de movimentos e/ou serem defensores do Estado Social, na altura com pouca estrutura, mas nenhum deles pede uma revolução anti-capitalista, ou sequer o fim do capitalismo como um todo, mas sim uma sociedade de caris socialista e democrática, e sobretudo BE e PCP são hoje partidos estruturados e consolidados na Democracia. Sobre isso recomendo a leitura de "A Esquerda Radical em Portugal e na Europa, Marxismo, Mainstream ou Marginalidade?", de André Freire e Luke March. 

 

Além disso, no caso do PCP, eles não só aceitaram as regras democráticas e a Constituição (há mais de 40 anos) como antes lutaram, na clandestinidade, para que hoje todos tenham acesso à opção de escolha, à liberdade de expressão ou à política em geral. Pese embora a omissão face a regimes de outros países. Porém, não existe comparação política capaz de meter no mesmo patamar quem quer igualdade económica por iniciativa legislativa e através da regulação da economia, como PS, Livre, BE e PCP, com quem quer expulsar cidadãos portugueses para "a terra deles" com base na religião, grupo étnico ou classe social e ascendência familiar. Isso é apenas intolerância.

 

Por outro lado, nem o problema de Portugal são os ciganos, os negros ou os estrangeiros, como também não o são nos EUA, no UK e na França, como no Brasil também não o são os índios ou os gays, nem os favelados. Talvez o problema seja mesmo gente que quer instalar-se no Estado para retirar direitos, liberdades e garantias a quem os conquistou justa e pacificamente. 

 

É isto que estes populistas fazem, vindos do ovo da serpente, que um pouco por todo o mundo nasceram na extrema-direita, fascista, misógina, racista e xenófoba: intoxicam o debate, inventam mentiras que transformam em factos e dizem que os factos e a verdade que lhes são contrários não passam de opiniões. A polarização é inevitável. No final andamos a discutir coisas como se a Terra é plana ou se o nazismo é de esquerda.

 

Pessoas assim não procuram ajudar ninguém a não ser a si próprias. Eles não se importam com nada nem com ninguém em especial, apenas encontram um bode expiatório dentro de um grupo social específico, habitualmente discriminado, por ignorância e preconceito, do qual se aproveitam para cavalgar mediaticamente nas intenções de voto, com o propósito de implementar um modelo social racista, xenófobo, discriminante, totalitário e opressor, como aquele contra o qual se lutou durante cinquenta anos. 

 

Eu percebo o descontentamento, não entendo a cegueira. Édipo arrancou os próprios olhos ao perceber a barbaridade que tinha feito com a própria família, quando as pessoas perceberem o que fizeram com a democracia espero que o arrependimento não seja tão grande.

Ilustração © Vasco Gargalo