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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Que se lixem as pessoas, o que interessa são os mercados!

 D.R. http://rr.sapo.pt


 

 

A frase do primeiro-ministro ao seu grupo parlamentar, ontem ao jantar, bem que podia ser traduzida por: “que se lixem as pessoas, o que interessa são os mercados”. Assim todos ficávamos a perceber do que se está a falar e ficavam as coisas a arrumadas em relação ao que se falou ontem à noite. [1]

 

A missão deste executivo não é salvar o país. É, desde o início e assumidamente, maquilhar a imagem do país para os mercados externos e para o circuito europeu, a fim de conseguir financiar-se lá fora. Mas mais do que isso, porque ele, o primeiro-ministro, sempre afirmou a intenção de “ir além da troika”[2]. Só que mais uma vez atalhou caminho e não se clarificou sobre o que significava ir além do exigido pelo nosso credor. Também é fácil prevaricar quando ninguém sabe quais são as regras, ou seja, quando ninguém leu o memorando.

 

As palavras proferidas no discurso, ontem à noite, devem ser analisadas com atenção e o contexto deve ser observado. Por um lado esta frase é uma boca interna para os que mesmo dentro do PSD exigem a demissão de Relvas, “por prejudicar a imagem do executivo”[3] e também para os que antecipam já um substituto[4] – ao que o PM ironiza com um comentário acerca do estrado do púlpito que estaria a mais.

 

Por outro lado o que ele quer dizer é que, independentemente: de a economia estar a encolher com menos transações efetuadas devido à baixa de rendimentos das famílias; do pouco ou nenhum crédito conseguido pelo tecido empresarial junto da banca salvaguardada com um empréstimo do estado de 12mil milhões de euros; de a politica de taxação constante de mais e mais serviços; de o corte dos subsídios ser ilegal e inconstitucional; de ter um ministro envolvido em escandalos com as secretas, alegas pressões e chantagens a jornalistas, com um processo de licenciatura no mínimo duvidoso conseguido numa instituição que cedeu um edifício para a sua campanha interna [5], envolvido também no processo pouco claro de afastamento de um cronista da Antena 1; de esse mesmo ministro estar encarregue da privatização que se avizinha ruinosa para o sector da comunicação em Portugal sem espaço ou mercado suficiente para abarcar mais canais privados; de se continuarem a oferecer taxos polémicos dentro das assessorias e secretarias de estado que não vão em linha com o discurso proferido pelas figuras governativas [6]; de haver cada vez mais desempregados e esses mesmo desempregados começarem a deixar de ter direito aos subsídios e mesmo os que estão empregados começarem a receber, em média, cada vez menos; de Albert Jaeger (FMI em Portugal) achar que um funcionário qualificado que receba 10€ à hora é pouco comparado com a EU, e “se um empresário não consegue ser competitivo é porque outras questões devem ser abordadas". Independentemente disso tudo o que conta é que estamos hoje a conseguir financiar-nos nos mercados e este fim de semana até com valores abaixo dos da Espanha.

 

Juntando a isso a implementação da visão neo-liberal que estes senhores têm do país, através do: retalho do SNS, cortando desde despesas com material à oferta de ordenados irrisórios, empurrando os qualificados para fora – tanto do SNS como do próprio país, porque ainda não existe oferta privada; do encarecimento dos serviços prestados pelo estado embora estes já tenham taxas e subtaxas para o seu financiamento, desde o corte nos descontos de acessibilidade dos jovens como dos idosos, passando pela taxação de estradas sem alternativa e já financiadas; do desmantelamento e encerramento dezenas de escolas por todo o país; da privatização dos serviços uteis, fundamentalmente Públicos, e que dão lucro como os CTT, serviço de águas, redes energéticas, passando pela TAP e terminando na RTP. Além do desinvestimento progressivo na Cultura, vista como um luxo apenas para alguns e que não é necessária, aliás, só estorva. Pode-se ainda juntar a isso a busca de investidores estrangeiros digna de politicas de países do chamado "3º Mundo": o ouro explorado no Alentejo vai para o Canada; a eletricidade dá lucros para a China; o petróleo ao largo de Sagres vai pó raio que o parta…  cá ficam os que não puderem fugir ou os que estão agarrados ao sistema. Assim o país é novamente distribuído por um punhado de mãos para que o governem a belo prazer, como já aconteceu na Idade Média, a quando da distribuição de terras por diversas Ordens e foros a cidades no fim fa Reconquista e com o objectivo de salvaguardar um país Político, e não físico.

 

O que se quer na verdade é que, daqui a quatro anos, quando chegarem as novas eleições o 'Portugal' que se salvou seja um país apático, sem poder de influência na malha industrial nem em nenhum campo de atuação de prestação de serviços fundamentais, desde a Educação, Transportes, Energias e Comunicação, para que então possa ser explorado a belo prazer por aqueles que talharam a sentença e pelos que têm dinheiro para o fazer. Por seu lado os pobres devem ser metidos no seu sítio: se não têm dinheiro é porque não querem, por isso trabalhem que nem cães, não esbanjem dinheiro em peças de teatro ou livros, comam fritos e frango assado e bem podem fazer exercício, começando pelo acartar de baldes de maça, quando se começarem a construir hotéis na serra queimada de Tavira! Belo Futuro! Ao menos o país salva-se.