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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Um conto de violência doméstica...

APAV

Tem cinquenta e cinco anos. Com vinte anos, foi forçada a casar com o filho, bem-apessoado, dos vizinhos, amigos da família, dois anos mais velho, e a quem estava prometida há quatro. Ia pelo vislumbre da independência de casa, dos pais e do escrutínio da família, para sofrer na redoma e domínio do noivo, marido, carrasco. Ele levava o dinheiro para casa, ela secava as lágrimas no fogão, com a esfregona na mão e sob os berros da mãe: “tu não sabes estar calada, já te avisei”, ou a reboque dos recados das amigas “ele é um bom homem, sustenta-te e não te falta nada, o que queres mais”. Um dia, passadas três décadas de hematomas, de quedas das escadas, de óculos de sol na rua, de desculpas na mercearia, de muita louça partida, saiu de casa e não voltou. Fez queixa, num posto fora da aldeia. Refugiou-se na casa de uma amiga. Chorou lágrimas de sangue sem saber ou conseguir compreender se o que estava a fazer era correto. Ganhou o divórcio, conseguiu uma condenação por agressão, e respirou fundo ao saber que o ex-marido tinha uma anilha no pé. Hoje, tem cinquenta e cinco anos e um tiro de caçadeira no peito.

 

A primeira chapada foi quando reclamou dos modos. A segunda quando deixou queimar o jantar. A terceira quando se esqueceu do vinho. A quarta quando pediu dinheiro. A quinta quando apareceu a chamá-lo na taberna, seguida dos risos dos espetadores impávidos. Às outras perdeu-lhes a conta. Foi assim que foi aprendendo qual era o lugar que os que estavam à sua volta lhe tinham destinado: servir o marido e apanhar indiscriminadamente quando falhasse no modo, na frequência e na lealdade desse serviço. E ainda mais quando questionasse o seu papel.

 

O lugar que lhe tinham destinado não ia muito mais além das paredes da casa para onde fora viver ainda gaiata, cheia de sonhos de gata-borralheira, que trocou a madrasta por um carrasco. A tortura diária, normalmente depois do mesmo chegar do trabalho para se ir embebedar, antes ou depois da hora de jantar, era intercalada pelos programas da manhã ou da tarde na tv: cheios de profícuos conselhos e anúncios de como emagrecer; limpar melhor a louça; de como agradar ao marido; de dicas de moda e vestuário; de como cozinhar este ou aquele bolo e prato de carne estufada com trufas de mirtilo; de como aspirar melhor; de como ser mais bela. Enfim, confirmando mormente o seu papel. Ou por notícias de casos de emancipação que, ou acabavam em desgraça ou acabavam em vergonha alheia. Ela própria se convenceu de que era uma merda.

 

Uma merda que nem aos olhos de Deus conseguia ser exemplar: deixou de conseguir perdoar ao marido, mesmo quando ele pedia desculpas, embevecido em lágrimas no dia seguinte; vivia condenada pelo peso do matrimónio que, aos olhos da Igreja, era para sempre, para mal dos pecados daqueles que roupem esse vínculo e ficam proibidos de ir comungar, ao contrário do agressor a quem Deus tudo perdoa. Pelo menos era disso que a retórica social a convencia.

Felizmente hoje está morta. Não tendo de sofrer mais com a perseguição de um marido que ficou com pena suspensa ou ter de ligar a televisão e ouvir da boca de uma mulher, jornalista e comentadora que afirma: “não percebo como é que as mulheres se sujeitam a isso” (última Barca do Inferno). Manuela Moura Guedes tem espírito de bully, e é por isso que ela, como qualquer agressor, não contempla ou compreende a ideia de uma vítima ser incapaz de reagir perante o agressor e as suas agressões perpetuadas. Embora qualquer opinião sua, por norma, denote uma panóplia de preconceitos sociais (contra todas as classes), esta culpabilização da vítima é ainda mais absurda e atroz: porque é um atentado contra todas as mulheres, das quais, por mais que nos custe acreditar, ela ainda faz parte.

 

Pela lógica de que, ser solidário com a vítima é um atestado de estupidez para a mesma, então todas as mulheres que apanham, além de apanharem, são estúpidas. Ou então, qualquer sequestrado, a partir de hoje, é um estúpido por não se livrar das amarras do sequestrador. Mas, também há outra lógica que se tem tornado preponderante na opinião de casino, vomitada em alguns programas de pantorrilha: a de que o álcool está na causa do problema, por muitos dos agressores estarem bêbados. Ora, talvez se forem analisar bem, há bêbados em todo o lado, aleatoriamente. Desculpem: mas não foi o álcool, nem é o álcool que mata as inúmeras mulheres que sofrem de violência doméstica. Como há quem o diga e já pondere uma nova proibição do seu consumo (22 de Dezembro de 2014, na SIC). Que haja assassinos (e bestas) que matam ou batem nas mulheres alcoolizados, não nos permite inferir que todos os consumidores de álcool são bêbados, nem que todos os bêbados são patológicos, nem que todos os bêbados patológicos são violentos.

 

O que mata as mulheres é a falta de cultura social; o machismo entranhado nas veias; a violência despenalizada; a verborreia televisiva que forma burros! Além da desculpabilização do homicida, junto com a culpabilização da vítima. Já agora, se acham que a miséria, a pobreza, o empobrecimento e o desemprego não têm nada a ver com isto: tentem discutir com alguém em jejum, sob ameaças aos vossos filhos, sem casa onde ficar, e sem dinheiro para pagar a um advogado, custas judiciais e idas a comarcas! Boa sorte!